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De pontos fixos a soluções de EDOs: a ideia de Banach

Como o teorema do ponto fixo de Banach esclarece o método das aproximações sucessivas de Picard e o teorema de Cauchy–Lipschitz.

Motivação

Na maioria dos cursos de Equações Diferenciais Ordinárias no Brasil, a existência e unicidade das soluções aparecem como um fato a ser aceito pelo aluno. Depois de aprender a resolver algumas famílias conhecidas de equações, o aluno encontra o método de Picard: define-se uma sequência de funções, iteram-se algumas estimativas e afirma-se que a sequência converge para uma única solução.

Foi assim que eu primeiro aprendi o teorema de Cauchy–Lipschitz. O método funcionava, mas sua lógica permanecia escondida nos cálculos. Por que as aproximações deveriam convergir? Por que o limite seria uma solução? E, sobretudo, por que o mesmo procedimento também provaria a unicidade?

Quando eu novamente estudei equações diferenciais na França, encontrei uma nova abordagem para essa teoria. Antes de Picard, demonstra-se um resultado geral de análise: o teorema do ponto fixo de Banach. Em seguida, o problema de valor inicial é transformado numa equação integral, que por sua vez define uma aplicação sobre um espaço de funções. Resolver a EDO passa a significar encontrar um ponto fixo dessa aplicação.

Desse ponto de vista, o método de Picard deixa de ser uma construção particular das equações diferenciais. Ele é simplesmente o método das aproximações sucessivas aplicado a uma contração. É essa ligação que quero tornar explícita neste texto, partindo das noções de espaço métrico e completude até chegar ao teorema local de Cauchy–Lipschitz.

O problema de valor inicial

Sejam I⊆RI\subseteq\mathbb{R} um intervalo, U⊆RnU\subseteq\mathbb{R}^n um aberto e

f:I×U⟶Rn.f:I\times U\longrightarrow\mathbb{R}^n.

Fixados um instante t0∈It_0\in I e um estado x0∈Ux_0\in U, consideramos o problema

{x˙(t)=f(t,x(t)),x(t0)=x0.\begin{cases} \dot{x}(t)=f(t,x(t)),\\ x(t_0)=x_0. \end{cases}

Esse é um problema de valor inicial, também chamado de problema de Cauchy. Se J⊆IJ\subseteq I é um intervalo que contém t0t_0, dizemos que

x:J⟶Ux:J\longrightarrow U

é uma solução em JJ quando x∈C1(J,U)x\in C^1(J,U) e

x(t0)=x0,x˙(t)=f(t,x(t))para todo t∈J.x(t_0)=x_0, \qquad \dot{x}(t)=f(t,x(t)) \quad\text{para todo }t\in J.

O próprio intervalo JJ faz parte da solução. Antes de procurar uma fórmula explícita para xx, há duas perguntas mais fundamentais.

Existência. Há algum intervalo em torno de t0t_0 no qual uma solução esteja definida?

Unicidade. Se duas soluções passam pelo mesmo ponto (t0,x0)(t_0,x_0), elas necessariamente coincidem perto de t0t_0?

O teorema de Cauchy–Lipschitz responde afirmativamente às duas perguntas sob hipóteses adequadas sobre ff. A resposta é local: ela vale, a princípio, apenas em algum intervalo ao redor do instante inicial.

Da equação diferencial à equação integral

O primeiro passo é elementar, mas muda completamente a forma de olhar para o problema.

Lema. Suponha que ff seja contínua. Uma função contínua x:J→Ux:J\to U resolve o problema de Cauchy se, e somente se,

x(t)=x0+∫t0tf(s,x(s)) dspara todo t∈J.x(t)=x_0+\int_{t_0}^{t}f(s,x(s))\,ds \qquad\text{para todo }t\in J.

Demonstração. Se xx é solução, o teorema fundamental do cálculo fornece

x(t)−x(t0)=∫t0tx˙(s) ds=∫t0tf(s,x(s)) ds.x(t)-x(t_0) = \int_{t_0}^{t}\dot{x}(s)\,ds = \int_{t_0}^{t}f(s,x(s))\,ds.

Usando x(t0)=x0x(t_0)=x_0, obtemos a fórmula integral. Reciprocamente, se a fórmula vale, a continuidade de ff permite derivá-la. Assim,

x˙(t)=f(t,x(t)),\dot{x}(t)=f(t,x(t)),

e, tomando t=t0t=t_0, recuperamos a condição inicial.

A vantagem dessa formulação é que a incógnita deixa de aparecer sob uma derivada. Podemos agora definir uma aplicação que recebe uma curva yy e devolve outra curva:

Φ(y)(t)=x0+∫t0tf(s,y(s)) ds.\Phi(y)(t) = x_0+\int_{t_0}^{t}f(s,y(s))\,ds.

Resolver o problema de Cauchy equivale, portanto, a encontrar uma função xx tal que

Φ(x)=x.\Phi(x)=x.

Em outras palavras, procuramos um ponto fixo de Φ\Phi. Falta-nos, então, escolher um espaço de funções no qual essa aplicação esteja bem definida e seja contrativa.

Espaços métricos e completude

Como Φ\Phi atua sobre funções, precisamos medir a distância entre duas funções. Também precisamos garantir que, quando as aproximações se tornam arbitrariamente próximas, seu limite continue pertencendo ao espaço considerado. É exatamente isso que as noções de distância e completude formalizam.

Distâncias e espaços métricos

Definição. Seja XX um conjunto. Uma aplicação

d:X×X⟶[0,+∞)d:X\times X\longrightarrow[0,+\infty)

é uma distância sobre XX se, para todos x,y,z∈Xx,y,z\in X,

d(x,y)=0⟺x=y(separac¸a˜o),d(x,y)=d(y,x)(simetria),d(x,z)≤d(x,y)+d(y,z)(desigualdade triangular).\begin{aligned} d(x,y)=0 &\quad\Longleftrightarrow\quad x=y &&\text{(separação)},\\ d(x,y)&=d(y,x) &&\text{(simetria)},\\ d(x,z)&\leq d(x,y)+d(y,z) &&\text{(desigualdade triangular)}. \end{aligned}

O par (X,d)(X,d) é chamado de espaço métrico.

Uma sequência (xn)n≥0(x_n)_{n\geq0} converge para x∈Xx\in X quando

d(xn,x)⟶0.d(x_n,x)\longrightarrow0.

Já uma sequência de Cauchy é uma sequência cujos termos se aproximam entre si:

∀ε>0,∃n0∈N,∀n,m≥n0,d(xn,xm)<ε.\forall\varepsilon>0,\quad \exists n_0\in\mathbb N,\quad \forall n,m\geq n_0,\quad d(x_n,x_m)<\varepsilon.

Toda sequência convergente é de Cauchy. De fato, se xn→xx_n\to x, então, para nn e mm suficientemente grandes,

d(xn,xm)≤d(xn,x)+d(x,xm)<ε.d(x_n,x_m) \leq d(x_n,x)+d(x,x_m) <\varepsilon.

A recíproca não é verdadeira em qualquer espaço. Uma sequência pode aproximar-se indefinidamente de um objeto que não pertence ao espaço onde ela foi construída. É essa possibilidade que a completude elimina.

Espaços métricos completos

Definição. Um espaço métrico (X,d)(X,d) é completo quando toda sequência de Cauchy em XX converge para um elemento de XX.

O exemplo clássico é a diferença entre Q\mathbb Q e R\mathbb R. Uma sequência de números racionais pode ser de Cauchy e convergir, em R\mathbb R, para um número irracional. Por isso, Q\mathbb Q não é completo com a distância usual.

No nosso problema, a completude terá uma função precisa: depois de provarmos que as aproximações sucessivas formam uma sequência de Cauchy, ela garantirá que o limite existe e ainda é uma função no espaço que definimos.

O espaço de Banach das funções contínuas

Seja

J=[t0−a,t0+a]J=[t_0-a,t_0+a]

um intervalo compacto. Denotamos por C(J;Rn)C(J;\mathbb R^n) o espaço das funções contínuas de JJ em Rn\mathbb R^n. Nesse espaço, usamos a norma da convergência uniforme:

∥y∥∞=sup⁡t∈J∣y(t)∣.\lVert y\rVert_\infty = \sup_{t\in J}|y(t)|.

A distância associada é

d∞(y,z)=∥y−z∥∞=sup⁡t∈J∣y(t)−z(t)∣.d_\infty(y,z) = \lVert y-z\rVert_\infty = \sup_{t\in J}|y(t)-z(t)|.

Essa escolha controla simultaneamente a diferença entre duas curvas em todos os instantes de JJ. Um espaço vetorial normado e completo é chamado de espaço de Banach.

Teorema. O espaço

(C(J;Rn),∥⋅∥∞)\bigl(C(J;\mathbb R^n),\lVert\cdot\rVert_\infty\bigr)

é um espaço de Banach.

Demonstração. Seja (yn)n≥0(y_n)_{n\geq0} uma sequência de Cauchy para a norma uniforme. Para cada t∈Jt\in J,

∣yn(t)−ym(t)∣≤∥yn−ym∥∞.|y_n(t)-y_m(t)| \leq \lVert y_n-y_m\rVert_\infty.

Logo, (yn(t))n≥0(y_n(t))_{n\geq0} é de Cauchy em Rn\mathbb R^n e podemos definir

y(t)=lim⁡n→+∞yn(t).y(t)=\lim_{n\to+\infty}y_n(t).

Passando ao limite na estimativa uniforme que define a propriedade de Cauchy, obtemos

∥yn−y∥∞⟶0.\lVert y_n-y\rVert_\infty\longrightarrow0.

Portanto, yny_n converge uniformemente para yy. Como o limite uniforme de funções contínuas é contínuo, temos y∈C(J;Rn)y\in C(J;\mathbb R^n). Assim, o espaço é completo.

Contrações e o teorema do ponto fixo de Banach

Aplicações contrativas

Definição. Seja (X,d)(X,d) um espaço métrico. Uma aplicação g:X→Xg:X\to X é contrativa quando existe k∈[0,1)k\in[0,1) tal que

d(g(x),g(y))≤k d(x,y)d(g(x),g(y)) \leq k\,d(x,y)

para todos x,y∈Xx,y\in X. Equivalentemente, gg é kk-Lipschitz com k<1k<1.

O ponto decisivo é a desigualdade estrita k<1k<1: a cada aplicação de gg, as distâncias diminuem por um fator uniforme. Se x∈Xx\in X satisfaz g(x)=xg(x)=x, dizemos que xx é um ponto fixo de gg.

Teorema do ponto fixo de Banach

Teorema. Seja (X,d)(X,d) um espaço métrico completo e não vazio, e seja g:X→Xg:X\to X uma aplicação contrativa. Então gg possui um único ponto fixo em XX.

Além de afirmar a existência do ponto fixo, o teorema fornece uma maneira de encontrá-lo.

Demonstração: existência por aproximações sucessivas

Escolha x0∈Xx_0\in X e defina

xn+1=g(xn),n≥0.x_{n+1}=g(x_n), \qquad n\geq0.

Aplicando repetidamente a hipótese de contração,

d(xn+1,xn)≤knd(x1,x0).d(x_{n+1},x_n) \leq k^n d(x_1,x_0).

Se m>nm>n, a desigualdade triangular dá

d(xm,xn)≤∑j=nm−1d(xj+1,xj)≤∑j=nm−1kjd(x1,x0)≤kn1−kd(x1,x0).\begin{aligned} d(x_m,x_n) &\leq\sum_{j=n}^{m-1}d(x_{j+1},x_j)\\ &\leq\sum_{j=n}^{m-1}k^j d(x_1,x_0)\\ &\leq\frac{k^n}{1-k}d(x_1,x_0). \end{aligned}

Como k<1k<1, o último termo tende a zero quando n→+∞n\to+\infty. A sequência (xn)(x_n) é, portanto, de Cauchy. Pela completude de XX, existe x∞∈Xx_\infty\in X tal que xn→x∞x_n\to x_\infty.

Toda contração é contínua. Assim,

g(x∞)=g(lim⁡n→+∞xn)=lim⁡n→+∞g(xn)=lim⁡n→+∞xn+1=x∞.g(x_\infty) =g\left(\lim_{n\to+\infty}x_n\right) =\lim_{n\to+\infty}g(x_n) =\lim_{n\to+\infty}x_{n+1} =x_\infty.

Logo, x∞x_\infty é um ponto fixo de gg.

A demonstração ainda fornece uma estimativa do erro. Fazendo m→+∞m\to+\infty na desigualdade anterior,

d(x∞,xn)≤kn1−kd(x1,x0).d(x_\infty,x_n) \leq \frac{k^n}{1-k}d(x_1,x_0).

Demonstração da unicidade

Se xx e yy são pontos fixos de gg, então

d(x,y)=d(g(x),g(y))≤k d(x,y).d(x,y) =d(g(x),g(y)) \leq k\,d(x,y).

Como k<1k<1, isso só é possível se d(x,y)=0d(x,y)=0. Portanto, x=yx=y.

Temos agora todo o mecanismo que será usado na EDO. A contração faz as aproximações se aproximarem umas das outras, a completude fornece o limite e a continuidade mostra que esse limite é um ponto fixo. A mesma desigualdade de contração garante a unicidade.

Um teorema local preciso de existência e unicidade

Voltemos às equações diferenciais. Primeiro provaremos uma versão precisa do teorema de Cauchy–Lipschitz, com hipóteses que permitem aplicar diretamente o teorema de Banach.

Fixe δ>0\delta>0 e (t0,x0)∈R×Rn(t_0,x_0)\in\mathbb R\times\mathbb R^n. Considere o compacto

A={(t,x)∈R×Rn:∣t−t0∣≤δ, ∣x−x0∣≤δ}.A= \left\{ (t,x)\in\mathbb R\times\mathbb R^n: |t-t_0|\leq\delta, \ |x-x_0|\leq\delta \right\}.

Suponha que f:A→Rnf:A\to\mathbb R^n seja contínua e que existam M,C>0M,C>0 tais que

∣f(t,x)∣≤Mpara todo (t,x)∈A,|f(t,x)|\leq M \qquad\text{para todo }(t,x)\in A,

e

∣f(t,x)−f(t,y)∣≤C∣x−y∣|f(t,x)-f(t,y)| \leq C|x-y|

sempre que (t,x),(t,y)∈A(t,x),(t,y)\in A.

A constante MM controla quanto uma solução pode se afastar de x0x_0 durante certo intervalo de tempo. A constante CC mede quanto o campo vetorial pode separar duas curvas. Defina

T=min⁡{δ,δ2M,12C}T= \min\left\{ \delta, \frac{\delta}{2M}, \frac{1}{2C} \right\}

e J=[t0−T,t0+T]J=[t_0-T,t_0+T]. As três restrições têm papéis diferentes: T≤δT\leq\delta mantém o tempo dentro de AA; MT≤δ/2MT\leq\delta/2 mantém a curva dentro da bola espacial; e CT≤1/2CT\leq1/2 fará a aplicação de Picard ser contrativa.

Teorema. Sob essas hipóteses, existe uma única função x∈C1(J;Rn)x\in C^1(J;\mathbb R^n) tal que

x˙(t)=f(t,x(t)),x(t0)=x0,\dot{x}(t)=f(t,x(t)), \qquad x(t_0)=x_0,

e (t,x(t))∈A(t,x(t))\in A para todo t∈Jt\in J.

O espaço métrico completo

Considere a bola fechada

B‾(x0,δ)={x∈Rn:∣x−x0∣≤δ}\overline B(x_0,\delta) = \{x\in\mathbb R^n:|x-x_0|\leq\delta\}

e defina

E=C(J;B‾(x0,δ)).E=C\bigl(J;\overline B(x_0,\delta)\bigr).

Restringir a imagem das curvas é necessário porque só controlamos ff no conjunto AA. Com a distância

d∞(y,z)=∥y−z∥∞,d_\infty(y,z) = \lVert y-z\rVert_\infty,

o espaço EE é não vazio e completo: a bola fechada B‾(x0,δ)\overline B(x_0,\delta) é completa, e limites uniformes de funções contínuas continuam sendo contínuos.

A aplicação de Picard envia EE em si mesmo

Para y∈Ey\in E, defina

Φ(y)(t)=x0+∫t0tf(s,y(s)) ds.\Phi(y)(t) = x_0+\int_{t_0}^{t}f(s,y(s))\,ds.

A função Φ(y)\Phi(y) é contínua e, para todo t∈Jt\in J,

∣Φ(y)(t)−x0∣≤∣∫t0t∣f(s,y(s))∣ ds∣≤M∣t−t0∣≤MT≤δ2.\begin{aligned} |\Phi(y)(t)-x_0| &\leq\left|\int_{t_0}^{t}|f(s,y(s))|\,ds\right|\\ &\leq M|t-t_0|\\ &\leq MT\\ &\leq\frac{\delta}{2}. \end{aligned}

Logo, Φ(y)\Phi(y) permanece em B‾(x0,δ)\overline B(x_0,\delta) e

Φ:E⟶E.\Phi:E\longrightarrow E.

A aplicação de Picard é contrativa

Sejam y,z∈Ey,z\in E. Para cada t∈Jt\in J,

∣Φ(y)(t)−Φ(z)(t)∣≤∣∫t0t∣f(s,y(s))−f(s,z(s))∣ ds∣≤C∣∫t0t∣y(s)−z(s)∣ ds∣≤CT∥y−z∥∞≤12∥y−z∥∞.\begin{aligned} |\Phi(y)(t)-\Phi(z)(t)| &\leq \left|\int_{t_0}^{t}|f(s,y(s))-f(s,z(s))|\,ds\right|\\ &\leq C\left|\int_{t_0}^{t}|y(s)-z(s)|\,ds\right|\\ &\leq CT\lVert y-z\rVert_\infty\\ &\leq\frac12\lVert y-z\rVert_\infty. \end{aligned}

Tomando o supremo em t∈Jt\in J,

∥Φ(y)−Φ(z)∥∞≤12∥y−z∥∞.\lVert\Phi(y)-\Phi(z)\rVert_\infty \leq \frac12\lVert y-z\rVert_\infty.

Portanto, Φ\Phi é uma contração no espaço métrico completo EE. O teorema de Banach fornece uma única função x∈Ex\in E tal que Φ(x)=x\Phi(x)=x, isto é,

x(t)=x0+∫t0tf(s,x(s)) ds.x(t) = x_0+\int_{t_0}^{t}f(s,x(s))\,ds.

Pelo lema da formulação integral, xx é uma solução C1C^1 do problema de Cauchy. A unicidade do ponto fixo dá a unicidade entre as soluções cujos gráficos permanecem em AA durante o intervalo JJ.

É aqui que o método de Picard reaparece de forma natural. As funções

yn+1=Φ(yn)y_{n+1}=\Phi(y_n)

são exatamente as aproximações sucessivas usadas na demonstração de Banach, agora construídas no espaço funcional EE.

O teorema de Cauchy–Lipschitz para um campo C1C^1

O teorema anterior deixa todas as estimativas visíveis. Na prática, porém, é mais comum conhecer a regularidade de ff do que dispor previamente das constantes MM e CC. A hipótese f∈C1f\in C^1 produz localmente as duas estimativas necessárias.

Corolário. Sejam I⊆RI\subseteq\mathbb R e U⊆RnU\subseteq\mathbb R^n abertos, e seja

f:I×U⟶Rnf:I\times U\longrightarrow\mathbb R^n

de classe C1C^1. Para todo (t0,x0)∈I×U(t_0,x_0)\in I\times U, existem T>0T>0 e uma solução

x:[t0−T,t0+T]⟶Ux:[t_0-T,t_0+T]\longrightarrow U

do problema

x˙(t)=f(t,x(t)),x(t0)=x0.\dot{x}(t)=f(t,x(t)), \qquad x(t_0)=x_0.

Além disso, essa solução é localmente única.

Existência

Como I×UI\times U é aberto e contém (t0,x0)(t_0,x_0), podemos escolher δ>0\delta>0 de modo que

A={(t,x):∣t−t0∣≤δ, ∣x−x0∣≤δ}A= \left\{ (t,x):|t-t_0|\leq\delta,\ |x-x_0|\leq\delta \right\}

esteja contido em I×UI\times U. O conjunto AA é compacto. Pela continuidade de ff, existe M>0M>0 tal que

∣f(t,x)∣≤Mem A.|f(t,x)|\leq M \qquad\text{em }A.

Denote por Jf(t,x)\mathrm J_f(t,x) a matriz jacobiana de ff com respeito à variável xx. Para uma transformação linear LL, usamos a norma induzida pela norma euclidiana:

∥L∥=sup⁡∣v∣=1∣Lv∣.\lVert L\rVert = \sup_{|v|=1}|Lv|.

Como ff é de classe C1C^1, a aplicação (t,x)↦Jf(t,x)(t,x)\mapsto\mathrm J_f(t,x) é contínua. Logo, é limitada no compacto AA: existe C>0C>0 tal que

∥Jf(t,x)∥≤Cem A.\lVert\mathrm J_f(t,x)\rVert\leq C \qquad\text{em }A.

A bola B‾(x0,δ)\overline B(x_0,\delta) é convexa. Pelo Teorema do Valor Médio, para (t,x),(t,y)∈A(t,x),(t,y)\in A,

∣f(t,x)−f(t,y)∣≤(sup⁡z∈B‾(x0,δ)∥Jf(t,z)∥)∣x−y∣≤C∣x−y∣.|f(t,x)-f(t,y)| \leq \left( \sup_{z\in\overline B(x_0,\delta)} \lVert\mathrm J_f(t,z)\rVert \right)|x-y| \leq C|x-y|.

As hipóteses do teorema local preciso estão satisfeitas. Portanto, com

T=min⁡{δ,δ2M,12C},T= \min\left\{ \delta, \frac{\delta}{2M}, \frac{1}{2C} \right\},

existe uma solução em [t0−T,t0+T][t_0-T,t_0+T].

O papel da hipótese C1C^1 fica, assim, bem concreto: a continuidade limita o campo vetorial numa vizinhança compacta, enquanto a jacobiana limitada torna ff Lipschitz na variável xx.

Unicidade local

O argumento de ponto fixo dá unicidade entre as curvas que permanecem na bola escolhida. Para comparar a solução xx com uma solução qualquer x~\widetilde x de mesma condição inicial, restringimos as duas a um intervalo suficientemente pequeno ao redor de t0t_0. Pela continuidade, ambas permanecem em B‾(x0,δ)\overline B(x_0,\delta) nesse intervalo e satisfazem a mesma equação integral. A unicidade do ponto fixo implica então

x~(t)=x(t).\widetilde x(t)=x(t).

O mesmo raciocínio pode ser repetido enquanto as duas soluções permanecerem no domínio comum. Assim, elas coincidem em todo intervalo comum que contenha t0t_0.

Concluímos que um campo vetorial C1C^1 determina uma única solução local passando por cada condição inicial. A afirmação é local porque toda a construção utiliza apenas uma vizinhança compacta de (t0,x0)(t_0,x_0); prolongar a solução além dela é outra questão.

Conclusão

Partimos de uma pergunta que o método de Picard, quando apresentado apenas como uma sequência de estimativas, não responde de maneira satisfatória: por que a iteração produz uma solução e por que essa solução é única? O teorema do ponto fixo de Banach mostra que as duas respostas pertencem ao mesmo argumento.

A equação diferencial é primeiro reescrita como

x(t)=x0+∫t0tf(s,x(s)) ds.x(t) = x_0+\int_{t_0}^{t}f(s,x(s))\,ds.

Essa fórmula define a aplicação de Picard sobre um espaço métrico completo de funções contínuas. A limitação de ff mantém as imagens dentro do espaço escolhido; a condição de Lipschitz na variável de estado torna a aplicação contrativa. Banach nos fornece então um único ponto fixo, que é justamente a solução do problema de Cauchy.

As aproximações de Picard

yn+1=Φ(yn)y_{n+1}=\Phi(y_n)

deixam, portanto, de parecer um artifício isolado. Elas são a parte construtiva do teorema de Banach. A contração faz as aproximações se aproximarem, a completude garante que seu limite pertence ao espaço funcional e a formulação integral transforma esse ponto fixo novamente numa solução da equação diferencial.

O resultado continua sendo local. Ele não determina até onde a solução poderá ser prolongada nem quais fenômenos podem impedir sua existência global. Essas perguntas levam à teoria das soluções maximais e do prolongamento.

Para o problema local, porém, a ideia central fica exposta: o método de Picard funciona porque é o método das aproximações sucessivas de Banach aplicado num espaço de funções cuidadosamente escolhido. Existência e unicidade não são dois pequenos milagres separados; são consequências do mesmo princípio de ponto fixo.

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